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Espaço para leitura e reflexão.

Você vai. As marcas ficam.

Você vai. As marcas ficam.

Relacionamos-nos diariamente com pessoas de forma real ou virtual. Algumas criamos vínculos, sentimentos e trocamos experiências. Mas nem sempre as relações são duradouras. Na era das relações efêmeras, quando pensamos que será duradouro, a vida nos prega uma peça e o destino nos separam daquela pessoa que estamos gestando um sentimento. Mas a distancia e até mesmo a falta de contato não apaga a marca que ela deixou. E nesse ponto é que sofremos, pois se a marca é boa sofremos pela saudade, relembramos da pessoa em situações do dia a dia, stalkeamos as redes sociais na busca por uma notícia, foto ou algo que possa saciar a nossa vontade. Se a marca é ruim sofremos por relembrar do trauma, podemos ficar remoendo, relembrando momentos, pensando em “n” possibilidades daquilo que poderia ser diferente e no fundo só estamos causando a nossa dor. Somos torturados em um trabalho conjunto da mente que traz à tona as lembranças e pelo coração que a cada lembrança nos faz sentir novamente o sentimento por alguém que não temos mais. Não somos somente vitimas nessa relação, também somos capazes de deixar marcas. Cada um lida com sua própria dor, e cada um tem o direito de se achar “o maior sofredor do mundo”.

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Preguiça

Preguiça.

 

A preguiça de acordo com o dicionário é aversão ao trabalho; pouca disposição para trabalhar; ócio. Lentidão em fazer qualquer coisa; morosidade; estado de moleza. A definição pode ser pouco conhecida, mas o que ela representa não é. Nós “enfrentamos” diariamente e cada indivíduo trava sua batalha pessoal. Ela pode ser quando se acorda na segunda para ir trabalhar, e aí você sente que o final de semana de bebedeira com os amigos serviu para trazer cansaço e a preguiça. Pode ocorrer após a refeição, quando vem aquele sono típico pós-almoço. Há diversas situações em que pode ocorrer e outras em que ela serve como incentivo. Há tempos refleti que o homem que havia inventado a roda seria o mais preguiçoso, pois ele criou algo que possibilitou uma tremenda economia de energia (rs). Desde então, penso que as invenções vão à direção da preguiça, e corroboram para que o Homem tenha que desempenhar a menor quantidade de energia e com o maior conforto e comodidade possível. Seria como um amigo de graduação dizia: é a lei do menor esforço. Não quero aqui dizer que realmente somos todos preguiçosos. Entretanto, acho que devemos reconhecer esse sentimento que há dentro de nós, mas que é visto com ojeriza pelo mundo capitalista do trabalho.

Porque só o amor não basta.

Porque só o amor não basta.

 

As relações em que o amor está presente são as melhores, e ele pode ser sentido de diversas formas. Entretanto, o amor é o elemento mantenedor forte suficiente para uma relação? No século XXI ainda nutrimos o mesmo sentimento amoroso de outrora, e acreditamos que havendo sua presença, a relação terá seu sucesso garantido. Mudamos ao longo de nossa história, e a forma de amar também é alterada, já que seus atores não são mais os mesmos. Hoje demonstramos a capacidade de nutrir sentimento por alguém que nunca vimos pessoalmente, mas que através de mensagens se faz presente; conseguimos nos apaixonar por imagens que criamos por base em nossas interpretações de atitudes daqueles que só estão presente virtualmente; enganchamos-nos com pessoas do nosso cotidiano, com estranhos ou com amigos que conseguem nos contemplar, suprir necessidades que nem se quer sabemos que temos. A realidade nua e crua é de que criamos um sentimento, geramos expectativas e torcemos piamente para que eles sejam correspondidos, mas nem sempre é possível. Além do amor, a convivência é algo tão importante quanto aquilo que sentimos pela pessoa, e se não conseguimos conviver com o outro, o amor não será suficiente para nos manter unidos. Não gostamos da dor, da perda, do fim e lutamos para que aquilo que gostamos permaneça, porém essa luta ou adiamento do fim pode gerar mais dor aos envolvidos na relação. Ela nem sempre é percebida, mas como então toda relação, há aquele que gosta mais, aquele que é mais racional, mais sensível e conseguem notar a deterioração da relação e aí uma série de motivos podem ser elencados para essa percepção, pois a pessoa pode se sentir sufocada com a relação, ter sentimento de tristeza, se sentir obrigada a estar com a outra pessoa por já ter compromisso firmado, etc. Nesse momento não percebemos que o apego pelo outro tomou o lugar do amor, e por isso há a dependência da presença. A separação, por mais traumática e dolorida que seja, é o caminho- correto ou não, só o tempo irá dizer-, mas permanecer inerte é ignorar a dor de quem está ao seu lado, é não enxergar a própria situação. Não se deve acreditar que só se vive o amor uma vez, é preciso ter coragem para amar e tendo ela, receberemos nosso bônus ao invés da punição do pecado de acreditar que só se vive uma vez.

Afogando no mar de informações.

Afogando no mar de informações.

A produção de informação está em patamar nunca antes visto na história da humanidade. Todos são capazes de produzir informação e transmiti-las através das redes sociais. Ocorre que a era da informação não resulta na geração de cidadãos bem informados e conscientes. A grande oferta de informações, verdadeiras e falsas, inunda a nossa vida e faz com que as consumimos sem distingui-las. Falta empatia de nossa parte para compreender os motivos que levaram a outra pessoa a agir e pensar daquela maneira. Nos sobra egoísmo para nos convencermos de que estamos certos e de que aqueles que divergem de nós estão redondamente enganados e por isso merecem ser punidos. Refletindo a luz das discussões que são travadas cotidianamente, as informações são como verdadeiras espadas embainhadas num duelo. O contraditório, é que hoje o diálogo construtivo é sufocado pelas discussões e pelo nosso medo de sermos contraditos, “ficarmos por baixo”. Na discussão há a busca pelo vencedor, mas na conversa não há um vencedor. A ideia de expor seu ponto de vista de maneira respeitosa e ouvir seu interlocutor é de fazer com que ambos saiam com seus pontos de vista fortalecidos ou que repensem sua posição. Assim, no diálogo, é possível a conversa entre posições diametralmente opostas e não há o receio. A internet através das redes sociais é espaço igualitário para expor ideias e aglutinar indivíduos que compartilham do mesmo ponto de vista, mas o comportamento de internautas reproduz a lógica bélica. Os argumentos na busca pela vitória não são medidos e a defesa pela liberdade de expressão é utilizada para justificar atos de barbaridade. Evoluímos constantemente, mas ao invés de superar nossas diferenças nós estamos indo para lado oposto e nos segregando cada vez mais.

Porque um joelho ralado dói bem menos que um coração partido.

Porque um joelho ralado dói bem menos que um coração partido.

A frase que dá título ao texto é oriunda da música Era uma vez da cantora brasileira Kell Smith. Ouvindo a música essa frase chamou a atenção, e fez refletir sobre a infância e a vida adulta. Não importa a idade, a dor está presente. Entretanto, na infância sentimos a dor física de um joelho ralado, de um dedo do pé machucado ao tentar chutar a bola na casa da vizinha descalço ou por um brinquedo quebrado, uma pipa perdida. Naquele momento a dor física se mostra pesada, capaz de arrancar lágrimas e berros. Quando crescemos e conhecemos outros sentimentos, nos deparamos com a dor subjetiva. O conflito de interesses, relacionamentos, discussões e violências simbólicas passam a serem sentidos. Crescemos, deixamos de ser crianças, enfrentamos o mundo do trabalho e continuamos convivendo com a dor. No convívio social somos capazes de sofrer e também de magoar profundamente. As nossas atitudes podem ser muito mais doloridas do que joelho ralado. A nossa forma de agir, por mais racional que seja, é capaz de ferir os outros e a nós mesmos, mas nem sempre percebemos. Nos enchemos de soberba para justificar nossa atitude e desqualificar a ação dos outros. No fundo, a nossa ação busca a autoproteção no sentido de evitar a dor. Mantemos comportamento hedonista e egoísta tentando satisfazer nossos anseios. Somos adultos fortes fisicamente, mas fracos emocionalmente e que sentem mais dores do que quando éramos crianças.

Link para a música no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=xJNKT9HAXRc

Deixe ir: As intermitências da Morte de José Saramago e o respeito pela morte.

Deixe ir: As intermitências da Morte de José Saramago e o respeito pela morte.

A literatura nos traz diversas abordagens sobre temas que comumente não discutimos ou preferimos não o fazer. José Saramago (1922-2010), escritor português e vencedor do Prêmio Nobel de literatura (1998), apresenta em suas obras, com sagacidade, críticas à sociedade. Seus livros demandam tempo, exigem certa experiência de leitura por conta de sua escrita sem ponto final e com períodos longos, que transforma a narrativa em uma história contada e exige um processo de compreensão da mente do autor. Entretanto, essa ação ocorre de forma natural devido aos constantes diálogos que o autor faz com seu leitor no texto e até de autocrítica, como no seguinte trecho do livro As intermitências da morte: “Os actores do dramático lance que acaba de ser descrito com desusada minúcia num relato que até agora havia preferido oferecer ao leitor curioso, por assim dizer, uma visão panorâmica dos factos, foram, quando da sua inopinada entrada em cena, socialmente classificados como camponeses pobres. O erro, resultante de uma impressão precipitada do narrador, de um exame que não passou de superficial, deverá, por respeito à verdade, ser imediatamente rectificado”.

Fato característico na literatura de José Saramago é a crítica irônica de instituições sociais, tais como, igreja, Governo, imprensa, crime organizado. Através de seu realismo fantástico, Saramago imagina como elas se comportam frente a determinados dilemas. Na obra, as chama de maphia, cuja grafia a diferencia da máfia, pois a primeira contribuiria para resolver a grave situação que assolava aquele ambiente (ausência da morte). Não compreendo, de que serve que se suicidem se não podem morrer, Estes sim, E como o conseguem, É uma história complicada, senhor, Conte-ma, estamos sós, No outro lado das fronteiras morre-se, senhor, Então quer dizer que essa tal organização os leva lá, Exactamente, Trata-se de uma organização benemérita, Ajuda-nos a retardar um pouco a acumulação de padecentes terminais, mas, como eu disse antes, é uma gota de água no oceano, E que organização é essa. O primeiro-ministro respirou fundo e disse, A máphia, senhor, A máphia, Sim senhor, a máphia, às vezes o estado não tem outro remédio que arranjar fora quem lhe faça os trabalhos sujos, Não me disse nada, Senhor, quis manter vossa majestade à margem do assunto, assumo a responsabilidade, E as tropas que estavam nas fronteiras, Tinham uma função a desempenhar, Que função, A de parecer um obstáculo à passagem dos suicidas e não o ser, Pensei que estavam lá para impedir uma invasão, Nunca houve esse perigo, de todo o modo estabelecemos acordos com os governos desses países, tudo está controlado.

As intermitências da morte apresenta uma situação extremamente fantasiosa e inusitada. A morte, já nas primeiras linhas do livro, é apresentada ao leitor e ambientalizada na história: “No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada”. A situação, já apresentada, é de que a morte abandona aquela sociedade no primeiro dia do ano em um lugar fictício cujo nome não é revelado. As pessoas não morrem mais e, como nas palavras do autor, elas entram em estado de vida suspensa, morte. No entanto, os animais continuaram a morrer e fora daquele determinado território a morte não foi interrompida.

O problema gerado pela ausência da morte é abordado no livro em uma faceta seriada da história, pois as situações hipotéticas são tratadas quase que de forma hermética, por exemplo, a questão da lotação dos hospitais e os asilos que praticamente transformaram-se em cemitérios de vivos, o comportamento do Governo, das funerárias, do crime organizado, dos filósofos e até das famílias que convivem com entes que estão em estado de morte suspensa. No segundo momento da história, Saramago apresenta a morte, seu retorno e mudança em seu modo de proceder. Nesse segundo momento há uma humanização, personificação da morte em figura feminina e como ela é surpreendida por um romance com violoncelista que havia escapado de seu fim.

O escritor aborda a necessidade e a dificuldade encontradas por algumas pessoas que, de certa forma, precisam da morte. A interrupção da morte atinge a todos no ambiente tratado pelo livro. Os doentes terminais, enfermos sem curas e outros não conseguem alcançar a morte e o sofrimento é compartilhado pelas famílias e até pelo Governo, que busca solução para evitar convulsão social. A saída encontrada foi levar aqueles que necessitavam da morte para além da fronteira e depois regressar para o país possibilitando à família realizar o enterro. No atestado de óbito destas pessoas constava o suicídio. A personagem principal da obra traz a reflexão de que ela não é uma vilã da humanidade e Saramago mostra, em poucas palavras, essa ideia: A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem.

A temática da morte abordada por Saramago pode ser transportada para o nosso cotidiano e ajudar a lidar com esta questão. A conduta moral habitualmente adotada é a defesa da vida em qualquer circunstância. Mas qual é o sentido da vida? Imaginemos as diversas situações que ocorrem nas quais pessoas que têm uma trajetória pessoal marcada pela liberdade e a perda por algum motivo: acidente ou doença. A liberdade está conectada de forma intrínseca à independência e quando passamos para a condição de dependentes, perdemos nossa liberdade. A liberdade está ligada aos atos mais primitivos do ser humano: caminhar, se limpar, tomar um copo d’água.

A compreensão desse processo exige que enfrentemos dilemas morais e a superação da dor própria. O comum é que as pessoas que estão ao redor daquele que sofre com a privação da liberdade lute com todas as forças pela existência, mesmo que isso signifique uma subsistência. A intenção não é praticar uma apologia ao desapego à vida, mas tentar refletir sobre o valor de uma vida sem prazeres, sem liberdade de escolha e ação: total dependência. Se houver uma análise fria sobre diversos casos em que a luta contra a morte se arrasta por longos anos, veremos o desgaste de todos os envolvidos. A luta irá consumir recursos financeiros, físicos e psíquicos. O cansaço estará estampado no rosto e na postura. Será clara a situação. A campanha em prol da vida terá respeitado o enfermo ou terá satisfeito o desejo pessoal dos demais envolvidos em se julgaram na condição de desafiar a morte e manter, pelo máximo de tempo possível, a pessoa viva mesmo em condição de subsistência?

A morte é algo inevitável, a única certeza que temos em nossa vida e mesmo assim escolhemos viver. As escolhas feitas podem ser alteradas de acordo com as novas situações que são apresentadas. A decisão entre viver ou renunciar é tarefa hercúlea para o tomador da decisão e tão trabalhosa é a aceitação pelos que possuem laços afetivos. Porém, é um exercício de sabedoria o ato de respeitar a vontade, compreender que aquele é o último ato em vida e que a escolha pode representar o fim de uma dor imensa e que não pode ser compartilhada por completo, pois somente quem vive aquela situação a conhece e a sente. Assim, como Saramago demonstra em sua obra, a morte possui sua importância e deve ser respeitada por todos.

Eduardo e Monica

Eduardo e Monica

O título do texto remete a música do Legião Urbana. Apesar de não ser fã da banda, a letra me fez pensar que seria um bom tema a ser refletido, e suscitou uma questão: o que é necessário para estar junto de alguém? Para além das relações efêmeras e consumíveis da modernidade, ainda buscamos, no fundo, uma relação duradoura. Na tentativa de sermos racionais idealizamos o parceiro, quais deveriam ser os gostos, os tipos de filmes que eles iriam gostar e etc. No fundo, quando pensamos no parceiro de forma racional, estamos pensando em nós e de forma egoísta. A nossa idealização desrespeita o outro. A letra da música narra a história de dois personagens distintos, mas que após conversarem em uma festa estranha com gente esquisita, trocam telefone e sentem a vontade de se ver. O sentimento surgiu entre eles e foi nutrido por ambos. A relação vingou, eles tiveram futuro juntos, casados e com filhos. Renato Russo ainda deixa duas questões:

E quem um dia irá dizer

Que existe razão

Nas coisas feitas pelo coração?

E quem irá dizer

Que não existe razão?

A busca por essa resposta talvez seja algo utópico, e também desnecessário. O sentimento pode ser como aquela flor que brota na fissura do asfalto conseguindo vencer todas as adversidades a sua volta. Pode ser que pensar demais, problematizar impeça de vivenciar experiências, de dar chance ao sentimento surgir. O que encanta Eduardo a Monica e vice versa, não é a beleza, mas a conversa, o diferente aos olhos de cada um. Mais do que encontrar alguém que se assemelhe a nós, a música mostra como eles foram capazes de mostrar um mundo completamente novo, encantador. Havendo a união entre eles, mesmo assim, cada um fez a sua história, conquistou seus objetivos e juntos compartilharam as glorias e as dores.

Novas relações, velhos sentimentos

Novas relações,  velhos sentimentos

As relações amorosas estão sendo transformadas. Na era da modernidade e do consumo, elas passaram a ser mais um produto. A mudança ocorre de maneira rápida e afeta todas as gerações. Atualmente não é mais necessário sair de casa para conhecer alguém. A internet possibilita a conexão entre as pessoas, e faz com que, através de aplicativos e sites de relacionamentos, a Web funcione como um dia a praça de sua cidade já foi. Ela já foi ambiente de interação social e capaz de iniciar relacionamentos que geraram novas famílias. O habito de homens e mulheres andarem em sentidos contrários na praça praticamente não existe mais. O processo de flerte era rudimentar se comparado aos dias atuais. Na praça, homens e mulheres usavam suas “armas”: olhar, um flerte, um sorriso. As artimanhas eram simples e singelas, assim como a ambição. A meta era encontrar alguém e seguir o “caminho natural” constituir família e ter filho. Atualmente a visão de mundo é outra. Não é que não existam pessoas que queiram o matrimonio, mas há novos elementos a serem ponderados. Os objetivos mudam em cada geração, e a vida profissional tomou uma preponderância. Apesar de o dinheiro ter tomado uma importância maior, ainda queremos ter um parceiro para dividir os momentos. No entanto, agora procuramos parceiros que estejam alinhados aos nossos objetivos. Desta maneira, tentamos viver como seres unicamente racionais se importam com a vida profissional e tentamos atingir sonhos pessoais. Outro traço que mudou e que tem a mesma importância é a individualidade. Somos estimulados ao individualismo, a nos sentirmos únicos. Apesar de toda essa mudança no relacionamento, há uma coisa que não muda: o sentimento, o amar. As relações são afetadas por diversos elementos do mundo contemporâneo, mas o sentimento permanece atemporal, e o sofrimento por ele provocado ainda é o mesmo. Muitos buscam relacionamentos efêmeros e casuais pensando serem imunes. A praticamente comumente chamada de “praticando o desapego” funciona perfeitamente na teoria, mas a prática comumente mostra-se bem diferente. Ao relacionar-se com alguém é inevitável a criação de um sentimento pela pessoa, de um carinho por ela. No inicio não é notado, mas é como se a outra pessoa fosse adentrando em nossa vida, e só notássemos isso quando ela não está mais presente. É nesse momento em que nos damos conta de que realmente havia um sentimento pela pessoa, mas pode ser tarde para recuperá-la. O sofrimento aparece, e em uma relação não existem indivíduos imunes aos sentimentos. O externo a nós é alheio as nossas vontades, é alterado dia após dia, hora após hora, minuto a minuto, mas os sentimentos permanecem inalterados. A maneira como as relações são iniciadas, desenvolvidas e terminadas podem ser alteradas, mas o sentimento, por hora, permanece o mesmo ao longo de nossa história.

O vidente em causa própria.

O vidente em causa própria.

O vidente é aquele que faz diversas previsões. Nós também fazemos o mesmo cotidianamente, e em nossas reflexões sobre a vida alheia sentenciamos o futuro, assim como Nostradamus o fazia. Mas nossas “previsões”, palpites sobre a vida de outrem não é registrada. Às vezes compartilhamos com aquele(a) que está ao nosso lado em uma conversa informal. Somos capazes de definir o futuro de casais a primeira vista. Estranho esse nosso “poder”, pois, aquele que está do lado de fora da relação nunca sabe de fato o que ocorre entre o casal. Porém, a intenção desse texto não está debruçada sob terceiros. A ideia é refletir sobre as nossas atitudes em nossos relacionamentos. Se no relacionamento de terceiros conseguimos julgar de forma sumária. Qual o nosso comportamento frente às relações que vivemos? A relação na modernidade é cada vez mais efêmera e segue a dinâmica de um produto em que compramos, usamos e depois descartamos. Mas quando iniciamos a relação não deveríamos ter em nossa mente a intenção de ser algo duradouro? Não somos capazes exercer a função de “videntes” e prever o destino das relações que vivemos? Suponha que você conheça alguém, e que logo de imediato tal pessoa complete suas expectativas, se mostre uma pessoa encantadora e lhe traga à mente a questão: como pude viver tanto tempo sem ele(a)? Entretanto, a sua “previsão” é de que a relação não será duradoura, que um acabará machucando o outro e que no final o “conto de fadas” se torna em um conto dos irmãos Grimm. Qual a sua reação? Teria coragem hercúlea de terminar tudo, aguentar a dor e seguir seu caminho? Encararia a relação com seus momentos bons, ruins e viveria na plenitude tudo o que a relação pode proporcionar tanto a dor quanto o amor? Para apimentar a questão, no momento da revelação do destino, seria aquele momento em que nos percebemos realmente envolvidos. Aquele momento em que você sente um vazio quando a pessoa não está ao seu lado, que o dia sem receber suas mensagens tem as horas passadas “lentamente” e que ao tempo ao lado dela passe voando. Nessa situação, qual seria sua atitude?

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