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Flores para Algernon

As obras literárias são uma oportunidade de conhecer trabalhos que nos fazem crescer. O trabalho de escrever representa uma forma de colocar no papel ideias, sonhos, desejos e projetos de vida. Ao leitor fica o prazer de contemplar, apreender, questionar e, acima de tudo, a liberdade para relacionar o conteúdo do texto com o mundo externo.

Flores para Algernon é uma obra que foi escrita no ano de 1959 por Daniel Keyes. Ouso dizer que é um clássico da literatura porque trata de questões que são atemporais durante sua narrativa. A história tem como personagem central Charlie Gordon, que sofre de retardo mental. Charlie sempre é retratado como excelente rapaz e com qualidades que estão em patamar superior comparadas à sua inteligência. Mas o fato é que, desde a tenra infância, ele esteve sendo subjugado, maltratado e teve a violência direta e simbólica como parte de seu cotidiano nos ambientes em que estava. Sofreu na infância por amor não correspondido por uma companheira de sala e foi sabotado em sua tentativa pudica de aproximação com a amada, sofrendo com a ira dos irmãos dela. Dentro de casa, havia o conflito dos pais. A ânsia da mãe de inserir o menino de fato dentro das regras da sociedade, na busca por um desenvolvimento intelectual, se chocava diretamente com o desejo do pai de respeitar a autonomia da criança. O fato é que a infância não abandonou as lembranças de Charlie e, mesmo distante da família, ele foi em busca de um desejo íntimo de ficar inteligente. Não falta força de vontade e muito menos coragem. O personagem principal irá se submeter a uma cirurgia experimental com a intenção de solucionar seu retardo mental e, assim, ficar mais inteligente. O livro narra a história através dos relatórios escritos por Charlie e permite que o leitor note as mudanças na escrita e também na sua personalidade.

Cabe aqui um exercício de reflexão provocado pelo texto durante a leitura. O desejo de ficar inteligente é catalisador para Charlie, mas o que o motiva de fato é a tentativa de aprovação com tal atitude. Estranho pensar que acabamos agindo por tanto tempo acreditando ter a certeza do que nos motiva, mas no fundo as respostas que encontramos sozinhos não são a verdade. Temos dentro de nós um rol de pessoas importantes e a quem queremos satisfazer. Parece que nosso subconsciente vai elaborando a lista de forma velada sem que notemos a sua presença durante a ação. O que fica junto com a vontade de obter aprovação é o medo da desaprovação. Em um processo dicotômico ou até mesmo dialético, elas fazem com que tomemos nossas atitudes.

O processo iniciado de aprendizagem gera mudança interna, altera a forma como vemos as coisas, nosso senso crítico, e isso tem consequência direta na nossa relação com o meio social em que estamos inseridos. Sair do senso comum e fincar os pés no mundo crítico, adquirindo cada vez mais conhecimento, gera uma disparidade de nível acadêmico. Imagine aquela pessoa amável que sempre esteve ao seu lado e que tinha atitudes totalmente previsíveis, por conta da longa convivência com você, mudando completamente e começando a aprender de forma tão rápida. A mudança assusta a gente e o principal motivo é porque acabamos temendo aquilo que não conhecemos. A nossa reação quando estamos com medo tende a ser violenta porque estamos tentando nos proteger. Assim, a busca pela mudança interna gera consequências que não conseguimos calcular. Fica também implícito que nossos companheiros, amigos e pessoas com quem nos relacionamos acabam exercendo um tipo de controle que, de alguma maneira, nos limita. Seria como se fôssemos aprisionados naquele formato, naquela forma de desenvolvimento.

A mudança interna faz caminhos sem volta; mesmo voltando para o lugar de origem, podemos dizer que já não somos a mesma pessoa que outrora esteve naquele local. O desejo de inteligência não é um fim em si mesmo, ele é o processo para que outro objetivo seja alcançado: a aceitação social. Desde nosso primeiro processo de socialização, que ocorre dentro da família, buscamos a inserção e aprovação, depois, quando vamos para a escola, repetimos o processo. Afinal de contas, queremos ser bem-sucedidos e nossa sociedade prega valores e regras nos quais devemos nos encaixar e que, por isso, nos fazem ir em busca de sucesso. Quando não logramos sucesso, acabamos conhecendo o lado perverso: o da exclusão. Vivemos a dor de saber que temos desejos simples, mas que estes não são respeitados e que nossa atitude é sempre interpretada diferente das nossas reais intenções. Ainda, como resultado desse processo, recebemos junto da exclusão a violência física, que gera traumas.

As reflexões desse texto foram provocadas a partir do livro, mas também de toda trajetória que vivencio desde minha tenra idade. O processo de leitura é solitário por essência e é um momento de anomia (ausência de regras) em que nos desenvolvemos de acordo com nossa capacidade e autonomia. Temos mudanças internas, mas elas não são facilmente reverberadas. É como a mudança de horas do relógio porque sabemos que ela está ocorrendo, mas não é tão fácil notar a movimentação do ponteiro das horas. Assim, encerro o texto com um convite para leitura do livro Flores para Algernon. O desejo que a leitura ocorra e que faça sentido para o leitor faz parte da minha busca na produção de textos reflexivos. Dickens me mostrou, com sua obra, que acabamos sendo reféns de nossos desejos e até egoístas em nossa saga. Aprendendo com ele, sigo mais consciente de meus passos, mas sem deixar de lutar por minhas convicções porque penso que isso é o que nos move, é o que nos dá força para sair da cama depois de acordar.

Boa leitura, companheiros!

Para além do bem e do mal

O ano de 2018 reserva para a população brasileira mais um pleito, porém, ele difere dos já ocorridos em toda a nossa história. O fluxo de informações que ocorre hoje nunca foi visto: as notícias chegam minuto a minuto e, com elas, os boatos. O mundo político sofre com a descrença provocada por seus personagens que, ao longo dos anos, tratam o bem público como empresa particular ou até mesmo como uma “galinha dos ovos de ouro”.

Os candidatos há tempos iniciaram suas ações para movimentar a base de apoiadores, mas ainda chegará o momento do confronto de ideias. A sociedade brasileira está machucada com os acontecimentos dos últimos anos; as manchetes dos meios de comunicação trouxeram muitas notícias de corrupção, redução do tamanho da economia e práticas da classe política em causa própria. Os fatores são somados com a realidade. O poder de compra foi reduzido, os salários foram, muitas vezes, diminuídos em prol da manutenção de cargos e o pensamento de que “é melhor se sujeitar a isso do que estar sem emprego” está presente em todas as camadas da população, que sofre com os choques na economia provocados pelos atos (de) políticos.

A próxima eleição não deverá ser como as anteriores e há uma série de fatores para justificar isso. É preciso pensar além da polarização eleitoral que já foi criada há alguns anos; é necessário ir além de ataques de seguidores de “mitos” ou políticos messiânicos que se colocam como a solução, mas que não apresentam propostas para a nação. Destruir é mais fácil do que construir.

Os debates serão espaços para o confronto de ideias e o (e)leitor deve, a todo momento, pontuar aquilo que deseja. No limite, o cidadão deseja um país melhor, com qualidade de vida, sem a perda de direitos sociais, capacidade de adquirir bens de consumo e qualidade na educação. Seria utópico desejar que os debates dessa eleição fugissem da rotina de ataques pessoais e partissem para a proposição de ideias realmente exequíveis? O que se faz de mais necessário em momento de crise é a oportunidade de novas ideias. As que já foram apresentadas mostram-se esgotadas e é necessário articulá-las com a realidade que está posta, desta maneira, fugindo do estelionato eleitoral. A conquista do voto deveria ser resultado de um projeto de nação feito pelo candidato e não de uma escolha do eleitor pelo “menos pior”.

Importância

Importância

A nossa vida é entrelaçada com diversas outras. Relacionamos-nos com pessoas diariamente, e não notamos de fato a relevância que elas têm até que seu trabalho não seja desempenhado corretamente, e aí acaba nos afetando. Nós reproduzimos uma forma de pensar e encarar o mundo em que valorizamos alguns em detrimento de outros. Cada um tem seu valor, contudo de fato sabemos enxergar qual esse valor? Conseguimos respeitar? Se chegarmos atrasados no trabalho e foi por conta do motorista do ônibus que por algum motivo não conseguiu cumprir o itinerário a tempo, nós o culpamos e alguns chegam a reclamar no momento. Cobrá-lo porque está atrapalhando a nossa rotina de alguma maneira. Entretanto, nos demais dias que ele segue a risca e cumpre seu trabalho, lembramos-nos de agradecê-lo? Não é que seja necessário vangloria-lo, mas trata-lo com o devido respeito. Temos a tendência de pensar que seu trabalho é sem importância. Uma simples comparação. O que é mais importante para uma sociedade: lixeiro ou economista. Se os economistas desaparecessem a nossa rotina não iria mudar e continuaríamos trabalhando. E se o lixeiro não fosse mais trabalhar? Imagine a quantidade de lixo que iria acumular o mau cheiro e a situação ainda poderia ser agravada com as chuvas. No entanto, qual o profissional mais valorizado? A divisão social do trabalho em nossa sociedade permite que cada um tenha a sua função, mas não há o devido respeito e valorização. Alguns possuem valor maior ou prestigio que outro. Nós reproduzimos esse comportamento sem refletir.

Eu acho, logo estou certo: o embate nas redes sociais.

Eu acho, logo estou certo: o embate nas redes sociais.

As redes sociais são realidade e parte do cotidiano da maioria da população. Nelas há espaço para compartilhamento de ideias, pensamentos, vídeos e o mais diverso tipo de conteúdo. Sua organização repete a dinâmica da sociedade e possibilita agregar membros em grupos, de acordo com seus interesses. Tal movimento é semelhante à organização da sociedade civil e de seus grupos. Essa semelhança pode e deve ser encarada como extensão entre grupos reais da sociedade civil e os grupos de redes sociais, pois, atualmente, suas ações começam a ser gestadas no ambiente virtual.

A relação entre esses grupos perpassa seus membros e alcança a esfera pública. A rede social permite exercer ativismo digital e usar o espaço virtual para a transformação do ambiente real. Ela também viabiliza um sistema democrático, participativo e de consulta à população. Ocorre que há diferença na velocidade da ação entre os ambientes. Na rede, em um simples clique, é possível assinar uma petição ou abaixo-assinado, mas o tempo para ocorrer a transformação real é muito maior.

Esse ambiente remete ao ideal. Uma simples visita a páginas que abordam temas políticos ou questões relativas à cidade demonstra que a realidade é totalmente diferente. Há defesa cega de candidatos ou ideologias por parte de internautas. Ocorre overdose de informação, fazendo com que o indivíduo se torne, progressivamente, menos capaz de efetuar julgamentos de valor adequados. A ampliação da repercussão de boatos e mentiras remete ao antigo “boca a boca”, agora em proporção exponencial devido ao alcance e à velocidade da disseminação da informação.

A democracia permite a liberdade de ideias e opiniões, mas é possível ver uma degradação atual do debate. Palavras duras são usadas e o reposicionamento é algo extremamente raro. Se o filósofo francês René Descartes dizia “Penso, logo existo”, no iluminismo, a internet inaugura o “Eu acho, logo estou certo”. Assim, o debate não parte de princípios ou informações corretas, mas da opinião individual daqueles que não querem pensar, que querem somente atropelar os que divergem da sua forma de pensar, de encarar o mundo ou de seu candidato. O espaço que poderia ser mais uma via de possibilidade da cidadania e da interlocução é pervertido pelo ódio e pela intolerância dos usuários, não cumpre plenamente seu papel como interlocutor com a esfera pública e serve como “muro de lamentação” para muitos.

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