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Sociedade e classe política no Brasil

A relação entre sociedade e classe política segue uma dinâmica cíclica principalmente nos momentos de crise. As rupturas institucionais na história brasileira tiveram como característica o descontentamento com governos e a aproximação de políticos à sociedade, com uma agenda comum. Após esse processo, os membros se distanciaram e a prática não teve relação com o discurso que unia cidadãos e políticos de oposição. Pensemos a respeito.

No final da República Velha (1889-1930), o clima brasileiro era de descontentamento geral. As novas frações de classe (movimento operário, feminista, nacionalista, escolanovista e modernista) buscavam seu espaço e havia forte descrédito com as instituições e o sistema eleitoral: era o fim do “voto de cabresto”. Assim, a Aliança Liberal, formada pelas oligarquias gaúcha, mineira e pernambucana, além do apoio tenentista, fez oposição a Júlio Prestes. No pleito de 1929, o candidato situacionista venceu, mas logo houve a Revolução de 1930. Foi o início da Era Vargas que durou até 1945. O governo provisório alterou o Estado, outorgando diversas medidas, algumas ainda vigentes, como a CLT, concurso público, voto feminino e a criação da USP em 1933. O Governo de 1930 deu origem ao Governo Constitucionalista em 1934 e, posteriormente, à ditadura do Estado Novo em 1937. Apesar da realização das medidas necessárias, o plano de governo apresentado à população foi totalmente alterado, transformado em ditadura personalista de Getúlio Vargas.

Processo semelhante ocorreu em outros momentos da história. Apesar da aproximação e do apoio popular em 1964, logo pôde-se sentir a forte repressão do Estado militar. A ditadura constitucionalista cerceou direitos civis, calou vozes, deixou uma imensidão de mães à procura de filhos que ousaram defender o país e netos que nunca entenderam por que seus pais saíram e nunca mais voltaram.

Hoje, o Brasil passa por momento semelhante: houve quebra institucional através de impeachment. A classe política de oposição proferiu o discurso da mudança e alimentou a esperança da massa insatisfeita. Agora os opositores são Governo e planejam uma série de mudanças: reformas trabalhista, educacional, previdenciária e privatizações. Diferente agora é o nível de informação da população. A circulação de notícias é instantânea, mas os boatos também. Necessário se faz o papel político da sociedade. Quem almeja mudança não pode ficar contente com a simples troca presidencial, pois a acomodação fará a história se repetir e as mudanças serão diferentes daquelas vislumbradas no período pré-ruptura.

Nossa realidade

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O discernimento da realidade está atrelado à condição ou capacidade de enxergar o entorno. Não significa que somos cegos, mas que tal atitude decorre de nossa organização social e política. Agimos como se vivêssemos em uma “bolha”, um prisma catalisador da imagem gerada. As cenas formadas têm como combustível nossa realidade associada a nosso senso crítico. Há também outros fatores incorporados ao tecido social das sociedades atuando como filtros. No Brasil, o Estado cumpre esse papel. Somos formados por diversas raças, com predominância de negros, mas convivemos normalmente com a paupérrima presença deles em diversos ambientes.

A “bolha” traz a sensação de que estamos certos, ignorando questões importantes em uma sociedade marcada por forte passado escravocrata, desigualdade social e racial. Se a política imigratória no fim da Primeira República (1889-1930) objetivou o branqueamento da sociedade e o esquecimento do trabalho escravo, trouxe consigo movimentos sociais posteriores. As ideias podem alterar a visão de mundo, tornando a “bolha” mais frágil e chegando a rompê-la.

As contradições sociais brasileiras permanecem; mesmo com os diversos momentos em que o país tentou superar sua condição, alcançando novo patamar, o salto foi incompleto. A relação Casa Grande & Senzala ainda é mantida e compreendida de forma subliminar ou imperativa; dependendo da sensibilidade de quem vê. O mito da democracia racial permanece cruel, pois o negro ainda não possui espaço. Quando aceito, é considerado “branco” e violentado: “ele é negro, mas é diferente”. O uso da conjunção adversativa “mas” expressa a violência simbólica, que diariamente é filtrada pela “bolha”.

A desigualdade social é pouco enfrentada e quando há contato com ela busca-se proteção. A proteção, tão presente na sociedade brasileira, ocorre com o fechamento do vidro do carro ou com o pedido feito à polícia para retirar alguém que não pertence a sua realidade social e que, de acordo com seu julgamento, está em local inadequado, transgrediu a ordem e merece ser punida.

A realidade é dura, mas deve ser enfrentada para que mude diariamente; em todos os âmbitos da vida. Sair da bolha implica mudar de atitude, enxergar aquilo que não queremos e que machuca. O “novo” pode chegar de diversas maneiras e experiências. Não é necessário passar por um trauma para ter criticidade e mudar sua vida. O necessário é afastar o comodismo, conformismo e a espera de que a solução chegará pelo alto, pois dali só chegarão novos prismas para a construção da realidade mascarada.

Refletindo com nossos exemplos.

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Atualmente vivenciamos clima político acirrado. Comentaristas o ressaltam como algo novo dentro de nossa recente história democrática, mas é recorrente na história de nossa sociedade. O Brasil virou uma nação independente em 1822, mas continuou sob a tutela de um monarca português. No final do século XIX houve processo de proclamação da república surgida em 1889 e que em 1891 ganhou sua Constituição de cunho liberal. Porém o liberalismo praticado poderia ser chamado de liberalismo à brasileira, porque o Estado era “convocado” a participar de assuntos que eram de interesse da classe dominante. Exemplo crasso a compra do excedente de café legalizada com o Convênio de Taubaté (1906).

Notável do ponto de vista social foi que nos processos políticos as mudanças ocorreram de cima para baixo. A classe política engendrou as grandes mudanças. O cenário começou a ser alterado nas primeiras décadas do século XX quando houve o início dos movimentos sociais, as greves operárias, o movimento modernista, movimento nacionalista e movimento feminista. Nesse momento a classe política participava dos grandes temas de interesse nacional. O grande tema político era o país, o desejo de uma nação moderna e que superasse as dificuldades econômicas em que estava.

É coerente relembrar que na década de 1920 o Brasil passou pelo último ciclo do café e terminou o período sentindo os efeitos da crise de 1929. Hoje, quase 100 anos após aqueles eventos, vivenciamos situações com pontos de convergência: forte recessão econômica, crise política e intenso desejo social de mudança. Mas a participação política difere, os fóruns de debates são outros. Além das ruas há o espaço das redes sociais, TVs e jornais. A quantidade de informação hoje produzida é sem sombra de dúvidas superior, mas diante desse quadro nos deparamos com a má qualidade do debate.

As redes sociais e os comentários demonstram a ferocidade e o não respeito pela opinião contrária. Debater política é algo necessário, deve fazer parte do cotidiano de nossa sociedade, e saber respeitar a opinião contrária é sinal de maturidade. Os argumentos não devem ser usados como armas empunhadas, mas sim em prol de crescimento e reflexão sobre os temas de interesse comum. Estamos dentro de uma democracia. O Governo que vence a eleição deve governar para todos e independente de ter recebido seu voto. Assim, cabe aproveitar o momento de crise em que novas ideias são propostas e ideias antigas com nova roupagem são apresentadas para lapidá-las e criar um município melhor, um estado melhor e uma nação melhor.

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