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Para além do bem e do mal

O ano de 2018 reserva para a população brasileira mais um pleito, porém, ele difere dos já ocorridos em toda a nossa história. O fluxo de informações que ocorre hoje nunca foi visto: as notícias chegam minuto a minuto e, com elas, os boatos. O mundo político sofre com a descrença provocada por seus personagens que, ao longo dos anos, tratam o bem público como empresa particular ou até mesmo como uma “galinha dos ovos de ouro”.

Os candidatos há tempos iniciaram suas ações para movimentar a base de apoiadores, mas ainda chegará o momento do confronto de ideias. A sociedade brasileira está machucada com os acontecimentos dos últimos anos; as manchetes dos meios de comunicação trouxeram muitas notícias de corrupção, redução do tamanho da economia e práticas da classe política em causa própria. Os fatores são somados com a realidade. O poder de compra foi reduzido, os salários foram, muitas vezes, diminuídos em prol da manutenção de cargos e o pensamento de que “é melhor se sujeitar a isso do que estar sem emprego” está presente em todas as camadas da população, que sofre com os choques na economia provocados pelos atos (de) políticos.

A próxima eleição não deverá ser como as anteriores e há uma série de fatores para justificar isso. É preciso pensar além da polarização eleitoral que já foi criada há alguns anos; é necessário ir além de ataques de seguidores de “mitos” ou políticos messiânicos que se colocam como a solução, mas que não apresentam propostas para a nação. Destruir é mais fácil do que construir.

Os debates serão espaços para o confronto de ideias e o (e)leitor deve, a todo momento, pontuar aquilo que deseja. No limite, o cidadão deseja um país melhor, com qualidade de vida, sem a perda de direitos sociais, capacidade de adquirir bens de consumo e qualidade na educação. Seria utópico desejar que os debates dessa eleição fugissem da rotina de ataques pessoais e partissem para a proposição de ideias realmente exequíveis? O que se faz de mais necessário em momento de crise é a oportunidade de novas ideias. As que já foram apresentadas mostram-se esgotadas e é necessário articulá-las com a realidade que está posta, desta maneira, fugindo do estelionato eleitoral. A conquista do voto deveria ser resultado de um projeto de nação feito pelo candidato e não de uma escolha do eleitor pelo “menos pior”.

Eu acho, logo estou certo: o embate nas redes sociais.

Eu acho, logo estou certo: o embate nas redes sociais.

As redes sociais são realidade e parte do cotidiano da maioria da população. Nelas há espaço para compartilhamento de ideias, pensamentos, vídeos e o mais diverso tipo de conteúdo. Sua organização repete a dinâmica da sociedade e possibilita agregar membros em grupos, de acordo com seus interesses. Tal movimento é semelhante à organização da sociedade civil e de seus grupos. Essa semelhança pode e deve ser encarada como extensão entre grupos reais da sociedade civil e os grupos de redes sociais, pois, atualmente, suas ações começam a ser gestadas no ambiente virtual.

A relação entre esses grupos perpassa seus membros e alcança a esfera pública. A rede social permite exercer ativismo digital e usar o espaço virtual para a transformação do ambiente real. Ela também viabiliza um sistema democrático, participativo e de consulta à população. Ocorre que há diferença na velocidade da ação entre os ambientes. Na rede, em um simples clique, é possível assinar uma petição ou abaixo-assinado, mas o tempo para ocorrer a transformação real é muito maior.

Esse ambiente remete ao ideal. Uma simples visita a páginas que abordam temas políticos ou questões relativas à cidade demonstra que a realidade é totalmente diferente. Há defesa cega de candidatos ou ideologias por parte de internautas. Ocorre overdose de informação, fazendo com que o indivíduo se torne, progressivamente, menos capaz de efetuar julgamentos de valor adequados. A ampliação da repercussão de boatos e mentiras remete ao antigo “boca a boca”, agora em proporção exponencial devido ao alcance e à velocidade da disseminação da informação.

A democracia permite a liberdade de ideias e opiniões, mas é possível ver uma degradação atual do debate. Palavras duras são usadas e o reposicionamento é algo extremamente raro. Se o filósofo francês René Descartes dizia “Penso, logo existo”, no iluminismo, a internet inaugura o “Eu acho, logo estou certo”. Assim, o debate não parte de princípios ou informações corretas, mas da opinião individual daqueles que não querem pensar, que querem somente atropelar os que divergem da sua forma de pensar, de encarar o mundo ou de seu candidato. O espaço que poderia ser mais uma via de possibilidade da cidadania e da interlocução é pervertido pelo ódio e pela intolerância dos usuários, não cumpre plenamente seu papel como interlocutor com a esfera pública e serve como “muro de lamentação” para muitos.

Discutir o Brasil.

O acirrado clima político nacional polariza o debate social. Há claros flancos abertos e os participantes defendem pontos de vistas opostos. A situação em que o Estado, a sociedade e a economia nacional se encontram é comum, mas as alternativas diferem em cada campo político. Certo é que, nesse momento de crise nacional, reformas são necessárias e podem alterar a configuração do Estado brasileiro a longo prazo, tendo impacto direto na sociedade através dos serviços prestados e da economia.

A ânsia pelo retorno da baixa inflação, do crescimento econômico e do aumento da renda perpassa o cidadão, porém há demandas, como inclusão social, redução da pobreza, saúde e ensino de qualidade, que não devem sair do horizonte do Estado. Essa questão não é simples, pois está claro que o “mercado” e uma parte significativa de grupos políticos defendem a redução do Estado e a maior participação da área privada. As reformas pretendidas pelo atual Governo corroboram essa visão e a ponte para o futuro aporta em um Estado mínimo, com orçamento engessado e classe trabalhadora “dotada” de legislação e previdência que privilegiam os empregadores.

A sociedade brasileira é formada, em sua maioria, por trabalhadores que precisam dos serviços fornecidos pelo Estado. Historicamente, essa instituição sempre foi construtora da sociedade, passou por reformas liberais e neoliberais, foi dotada de caráter gerencialista, mas voltou a ser aparelhada e grande. A educação e a saúde são de suma importância para a grande massa social e não é por menos que são garantidas pela lei máxima do país.

O embate é claro: Estado mínimo x Estado provedor. Esse embate político no qual os participantes possuem graus diferentes de poder deve ser travado. A discussão e a tomada de decisão fazem parte do jogo político. Mas no horizonte de cada um deve estar o país e a questão de suma importância, para além de aspectos meramente emergenciais, sobre qual é o país almejado para o futuro. As medidas tomadas nesse período irão delinear a construção do futuro da nação que nunca deve sair do horizonte político.

Sociedade e classe política no Brasil

A relação entre sociedade e classe política segue uma dinâmica cíclica principalmente nos momentos de crise. As rupturas institucionais na história brasileira tiveram como característica o descontentamento com governos e a aproximação de políticos à sociedade, com uma agenda comum. Após esse processo, os membros se distanciaram e a prática não teve relação com o discurso que unia cidadãos e políticos de oposição. Pensemos a respeito.

No final da República Velha (1889-1930), o clima brasileiro era de descontentamento geral. As novas frações de classe (movimento operário, feminista, nacionalista, escolanovista e modernista) buscavam seu espaço e havia forte descrédito com as instituições e o sistema eleitoral: era o fim do “voto de cabresto”. Assim, a Aliança Liberal, formada pelas oligarquias gaúcha, mineira e pernambucana, além do apoio tenentista, fez oposição a Júlio Prestes. No pleito de 1929, o candidato situacionista venceu, mas logo houve a Revolução de 1930. Foi o início da Era Vargas que durou até 1945. O governo provisório alterou o Estado, outorgando diversas medidas, algumas ainda vigentes, como a CLT, concurso público, voto feminino e a criação da USP em 1933. O Governo de 1930 deu origem ao Governo Constitucionalista em 1934 e, posteriormente, à ditadura do Estado Novo em 1937. Apesar da realização das medidas necessárias, o plano de governo apresentado à população foi totalmente alterado, transformado em ditadura personalista de Getúlio Vargas.

Processo semelhante ocorreu em outros momentos da história. Apesar da aproximação e do apoio popular em 1964, logo pôde-se sentir a forte repressão do Estado militar. A ditadura constitucionalista cerceou direitos civis, calou vozes, deixou uma imensidão de mães à procura de filhos que ousaram defender o país e netos que nunca entenderam por que seus pais saíram e nunca mais voltaram.

Hoje, o Brasil passa por momento semelhante: houve quebra institucional através de impeachment. A classe política de oposição proferiu o discurso da mudança e alimentou a esperança da massa insatisfeita. Agora os opositores são Governo e planejam uma série de mudanças: reformas trabalhista, educacional, previdenciária e privatizações. Diferente agora é o nível de informação da população. A circulação de notícias é instantânea, mas os boatos também. Necessário se faz o papel político da sociedade. Quem almeja mudança não pode ficar contente com a simples troca presidencial, pois a acomodação fará a história se repetir e as mudanças serão diferentes daquelas vislumbradas no período pré-ruptura.

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