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O meu pior inimigo: Eu

O meu pior inimigo: Eu

Vivemos em sociedade; compartilhamos informações pessoais, notícias, fotos e todos os fatos que pensamos ser relevantes. As redes sociais têm o poder de nos fazer sentir contemplado. É estranho pensar como o número de “curtidas”, “likes” pode nos gerar sentimento de prazer. Criamos expectativas com base em posts; queremos ser vistos, notados e comentados. Convivemos em uma era tecnológica, e estamos cada vez mais sós. A internet vai no sentindo oposto, e é através da sensação proporcionada de proximidade com as pessoas que estão conectadas na rede temos o sentimento de realmente não estarmos sozinhos. Podemos nos relacionar com pessoas de regiões nunca antes imaginada. Entretanto, nos apoiamos nessa dinâmica de interação, na velocidade que as coisas acontecem dentro da rede. A vida fora dela segue outro ritmo bem mais lento, e não possui toda a “grandiosidade”.  O sentimento gerado pelo sentimento de pertencimento, por se sentir contemplado pelos amigos da rede, de um grupo que fazemos parte é entorpecente. Sejamos claros, somos hedonistas e estamos constantemente na busca pelo prazer. Ocorre que nessa relação virtual criamos expectativas internas e que estão totalmente dependentes de outras, os quais muitas vezes só estão presentes nas redes, e nem se quer realmente sabemos se são reais. Quando postamos algo na rede, estamos tendo uma ação social em que esperamos a reação do interlocutor virtual. A quebra dessa dinâmica escancara que de fato muitas vezes estamos sós. Buscamos a rede para saciar demandas criadas por nós, e que não podem ser alcançadas. Fica a questão: como na atual sociedade onde a autonomia é exacerbada ainda somos tão dependentes do outro ao ponto de usarmos a rede para não nos sentirmos sozinhos?

-Não corra, Forest. Não corra!

-Não corra, Forest. Não corra!

A nossa trajetória é marcada pela busca. Desde os primeiros dias de nossas vidas as metas já fazem parte de nossa vida social, e nesse momento os objetivos são levados por nossos pais. O início é a busca pelos primeiros passos, depois as primeiras palavras e assim por diante. Sempre estamos correndo atrás de algo, e depois que chegamos ao nosso objetivo focamos em outro mais distante ainda. Ocorre que hoje mantemos esse padrão de comportamento, mas agora os objetivos a serem alcançados são bens materiais supérfluos e que nos encantam com o seu fetiche. Acreditamos piamente que ao atingir determinada meta encontraremos a felicidade plena, que comprar determinado item será o nosso Emplasto Brás Cubas resolvendo todas as nossas mazelas trazendo com ele a felicidade plena. O sabor da conquista é totalmente compreensivo, mas ao depositarmos toda nossa energia no resultado final nos esquecemos do processo que antecede. É o caso do atleta que fica pensando em como será desempenho em uma prova que tem grande importância para si. Ele sonhou com aquele momento, imagina-se na prova, e esquece que para ocorrer tudo o que deseja é necessário treinar (processo) dia após dia para só depois realizar seus anseios na participação da prova (resultado). O fim é resultado do empenho e dedicação durante o processo. Entretanto, é natural do nosso comportamento nessa sociedade contemporânea a busca pelo rápido resultado, e esse comportamento efêmero permeia todo o nosso comportamento humano. Temos a gana da rápida ascensão no mundo do trabalho; achamos que dedicar quatro anos para uma graduação é tempo demais; queremos tudo para ontem e não nos damos conta que não conseguimos aproveitar nossas próprias ações por conta do ritmo que seguimos e que não questionamos. Afinal, qual a necessidade de termos tanta pressa?

Alienação.

Alienação.

alienação

A alienação tem por significado o processo em que a consciência se torna estranha a si mesma, afastada de sua real natureza. Deixar de ser alienado pode fazer com que questionemos a nossa realidade, nos faz ter a práxis, no sentido marxista de unir teoria e prática para mudar o mundo, alterar a nossa realidade. Entretanto é cada vez mais complicado o processo de reflexão, pois somos dragados por uma lógica que domina a nossa vida. Nem bem abrimos os olhos ao despertar e nossa mente já está nos lembrando dos compromissos que temos, nossas responsabilidades, nossos objetivos e metas que nós mesmos colocamos, mas que não paramos para pensar qual é o real efeito deles, e se realmente nos faz bem. A lógica nos obriga a sermos empreendedores de nossas vidas, e afim de que tenhamos as condições materiais para comprar temos que trabalhar, estudar e progredir e se não conseguimos a culpa é individual. Desta maneira agimos com um olhar único, uma visão que nos cega. É como o antolho (viseira) de um cavalo que o obriga a olhar somente para a direção daquele que está em seu lombo, e o ordena através de chamados com uma violência simbólica ou através do chicote com a violência física. Refletir e questionar a ordem tem seu preço, pois o sistema automaticamente excluí quem pensa diferente, e como diria Bauman, a sociedade de consumo entrega aquilo que promete. Estranho pensar isso, mas as redes sociais e seus grupos servem para mostrar como o interesse comum de determinado assunto serve para aglutinar aqueles de opinião próxima e afastar outros que divergem da opinião do grupo. Reproduzimos essa lógica nas nossas microrrelações e não notamos. A sociedade cada vez mais segmentada, que nos da ilusão de pertencimento a determinado grupo homogêneo de pensamento gera uma atitude de autoproteção do grupo, proteção da “matilha”. Assim praticamos atitudes sem as quais realmente paramos para pensar se concordamos, mas o nosso desejo de sentir contemplado, incluído em um grupo é muito maior. Não é simples pensar diferente. Será que é melhor não pensar e ficar com o sentimento de “identidade” que a nossa sociedade calcada no consumo oferece?

-Eu te entendo. -Será mesmo?

-Eu te entendo.
-Será mesmo?

 

Compreender o outro é algo que dizemos fazer, e algo que agrada diversas pessoas. Entretanto será que realmente somos capazes ou tentamos nos colocar no lugar da outra pessoa, mas sem perder a nossa referência? Há a palavra empatia que pode ser compreendida como a capacidade de se colocar no lugar do outro. Isso será o suficiente? Não quero aqui dizer que não somos incapazes de entender o sentimento do outro, mas será que realmente o compreendemos em sua complexidade. Quando nos colocamos no lugar do outro, não podemos simplesmente “tomar” a posição que o outro estava e tentar compreender, pois aí será a nossa experiência, o nosso sentimento relatado. É necessário maturidade para praticar a empatia. No momento de se colocar no lugar do outro, deveríamos compreender a sua visão de mundo, como ele incorporou o conhecimento e o valor que ele da as coisas. Seria como se estivéssemos praticando um “divórcio cultural”, nos desprendendo de nosso ponto de vista e realmente enxergando com outros olhos. Sem tal atitude continuamos julgando com base em nosso juízo de valor, e ver o mundo somente sob nossa perspectiva.

Preguiça

Preguiça.

 

A preguiça de acordo com o dicionário é aversão ao trabalho; pouca disposição para trabalhar; ócio. Lentidão em fazer qualquer coisa; morosidade; estado de moleza. A definição pode ser pouco conhecida, mas o que ela representa não é. Nós “enfrentamos” diariamente e cada indivíduo trava sua batalha pessoal. Ela pode ser quando se acorda na segunda para ir trabalhar, e aí você sente que o final de semana de bebedeira com os amigos serviu para trazer cansaço e a preguiça. Pode ocorrer após a refeição, quando vem aquele sono típico pós-almoço. Há diversas situações em que pode ocorrer e outras em que ela serve como incentivo. Há tempos refleti que o homem que havia inventado a roda seria o mais preguiçoso, pois ele criou algo que possibilitou uma tremenda economia de energia (rs). Desde então, penso que as invenções vão à direção da preguiça, e corroboram para que o Homem tenha que desempenhar a menor quantidade de energia e com o maior conforto e comodidade possível. Seria como um amigo de graduação dizia: é a lei do menor esforço. Não quero aqui dizer que realmente somos todos preguiçosos. Entretanto, acho que devemos reconhecer esse sentimento que há dentro de nós, mas que é visto com ojeriza pelo mundo capitalista do trabalho.

Medo da dor.

A dor é sofrimento. Nossas experiências malsucedidas podem ser traumáticas e deixar marcas internas que alteram a nossa forma de encarar e escolher. O medo de sofrer faz com que fiquemos fechados para novas experiências. Mas a escolha racional de evitar sofrimento pode ser irracional: negamos vivenciar experiências que na verdade nos agradariam. As decisões tomadas, as relações que vivemos fazem parte de nossa história. A cicatriz interna deve servir para lembrar-nos do que deu errado e não devemos repetir, mas não deve ser usada como pretexto para reclusão. O pensamento de evitar perdas ou traumas deve ser invertido, mesmo que isso pareça eloquente. A busca deve ocorrer pela felicidade. Os momentos bons e ruins fazem parte da história. Não há narrativas cheias de felicidade, pois a dor, sofrimento e até a perda podem representar momento de crescimento e valoração do que está por vir. Aquele que sempre é feliz não conhece de fato a felicidade, porque nunca sentiu a tristeza e grandeza da reconstrução.

Amizade

Amizade.

O laço afetivo está presente desde o dia em que nascemos. Somos convidados à interação social pelos nossos pais, e apresentados a diversas pessoas antes mesmo que pudéssemos balbuciar as primeiras palavras. A interação, no inicio, é através da expressão facial e do choro. Além do envolvimento com outros adultos somos apresentados a outros bebês. Desde o começo eles são classificados como “amiguinhos”. Os primeiros amigos iniciam vínculo por conta da vontade paterna. No decorrer da vida continuamos a praticar a aproximação social, mas dessa vez está presente a nossa vontade. O interesse guia as relações humanas. É através dele que a aproximação gera amizade, e as experiências compartilhadas nutrem o vínculo. Ocorre que, ao longo da vida acabamos mudando de escola, indo para universidade, mudando de bairro ou até mesmo de cidade. A cada nova mudança ocorre distanciamento dos amigos, mas as conexões verdadeiras continuam independentes da distância ou tempo sem ver um ao outro. Em nossa jornada é um processo natural e cíclico, pois a cada mudança temos a oportunidade de conhecer novas pessoas, criar novos vínculos. O importante é saber lidar com as mudanças e o sentimento de que os vínculos firmados servem para construir a nossa história e deixar a marca dos amigos em nós.

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