Para realizar nossos desejos muitas vezes temos que nos arriscar. Ocorre que falta a coragem para arriscar, dar aquele insano primeiro passo fora da zona de conforto e assumir, clara e irrevogavelmente, a responsabilidade por nossas atitudes, exige brio e comprometimento intensos. Assim, nesse medo de ver-se no desamparo da solidão que permeia o ser dono de si, oprimimos o desejo. Nomeamos bodes expiatórios: experiências passadas frustradas, dificuldade do mundo, as pessoas complicadas e  geramos nossa dor permanecendo inertes.

Pensamos no resultado de nossas atitudes e optamos pelo resguardo. A racionalidade faz com que imaginemos todos os passos e as jogadas como em um jogo de estratégia em que devemos pensar em todos os movimentos. A dinâmica de racionalizar e calcular os riscos esta presente na relação humana. O que foge aos nossos gênios estratégicos é o reconhecimento de que o campo de batalha não está puramente escancarado na vivencia da vida em sociedade, mas em nosso íntimo. No receio que temos de reviver situações de que imaginamos termos sido vítimas quando fomos, também, nossos próprios carrascos. É ai, nesse enfrentamento necessário de nossa própria feiura, que a coragem refuga.

Quando calamos nossas ideias sob o pretexto de que não nos escutariam; culpamos o ex por não ter nos feito feliz quando, na verdade, nos faltou é coragem para construir a própria felicidade e não depender de ninguém mais para isso; reclamamos daquilo que temos e jogamos a dita culpa nas costas das lendárias “injustiças da vida”, mas nunca movemos solitário dedo na construção de um caminho menos ortodoxo e mais sincero conosco mesmo; entendemos solidão como sinônimo de tristeza e abandono e não como introspecção necessária para nossa própria construção enquanto indivíduos potentes que podem, ao invés de depender de alguém, convidar para que caminhe conosco. De certa maneira, essa racionalização das relações faz com que perdamos a espontaneidade e que cada ato seja ação social à espera da resposta correta. Mas o outro participante da relação não estabelece acordo para dar a resposta correta e passa pelo mesmo dilema de racionalizar e calcular os riscos. Visto que essa espera de resposta é o beijo suave da fantasia que nutrimos (sob a égide de um suposto saber da vontade alheia) e que nos leva a questionar o inquestionável: “Que quer esse outro?”.

O acesso ao mais agridoce daquilo que fundamenta o outro ser não nos é acessível, por ser dele e apenas dele – em uma solidão individual e não necessariamente social-, as chaves para o reino de seu interior, onde bailam seus desejos mais doces e suas perversões mais violentas. Nunca saberemos o que quer o outro por seu saber que não nos pertence. Inclusive, são deveras raras as vezes que sabemos, para nós mesmos, o que é que queremos.

Cabe alterar a atitude: sentir mais coragem e menos receio, ser autêntico e expressar de forma verdadeira a vontade. Cabe a coragem de olhar mais para si que para o outro, de apropriar-se mais das próprias terras devastadas que constituem o reino de nossa psique, onde somos o que somos de fato, ao invés de procurar aquele que trará nas mãos a absolvição de todos os nossos pecados. Coragem de admitir o erro, de aceitar as cicatrizes, de reconhecer-se humano e potencial monstro. De entender que somos vítimas, primeiramente, de nós mesmo e de nossa conduta. Nietzsche dizia que quando olhamos muito tempo para o abismo, ele olha de volta para nós. Quisera ele saber que os nossos abismos somos nós mesmos. Olhar para ele é olhar para si próprio. Portanto, coragem.