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O discernimento da realidade está atrelado à condição ou capacidade de enxergar o entorno. Não significa que somos cegos, mas que tal atitude decorre de nossa organização social e política. Agimos como se vivêssemos em uma “bolha”, um prisma catalisador da imagem gerada. As cenas formadas têm como combustível nossa realidade associada a nosso senso crítico. Há também outros fatores incorporados ao tecido social das sociedades atuando como filtros. No Brasil, o Estado cumpre esse papel. Somos formados por diversas raças, com predominância de negros, mas convivemos normalmente com a paupérrima presença deles em diversos ambientes.

A “bolha” traz a sensação de que estamos certos, ignorando questões importantes em uma sociedade marcada por forte passado escravocrata, desigualdade social e racial. Se a política imigratória no fim da Primeira República (1889-1930) objetivou o branqueamento da sociedade e o esquecimento do trabalho escravo, trouxe consigo movimentos sociais posteriores. As ideias podem alterar a visão de mundo, tornando a “bolha” mais frágil e chegando a rompê-la.

As contradições sociais brasileiras permanecem; mesmo com os diversos momentos em que o país tentou superar sua condição, alcançando novo patamar, o salto foi incompleto. A relação Casa Grande & Senzala ainda é mantida e compreendida de forma subliminar ou imperativa; dependendo da sensibilidade de quem vê. O mito da democracia racial permanece cruel, pois o negro ainda não possui espaço. Quando aceito, é considerado “branco” e violentado: “ele é negro, mas é diferente”. O uso da conjunção adversativa “mas” expressa a violência simbólica, que diariamente é filtrada pela “bolha”.

A desigualdade social é pouco enfrentada e quando há contato com ela busca-se proteção. A proteção, tão presente na sociedade brasileira, ocorre com o fechamento do vidro do carro ou com o pedido feito à polícia para retirar alguém que não pertence a sua realidade social e que, de acordo com seu julgamento, está em local inadequado, transgrediu a ordem e merece ser punida.

A realidade é dura, mas deve ser enfrentada para que mude diariamente; em todos os âmbitos da vida. Sair da bolha implica mudar de atitude, enxergar aquilo que não queremos e que machuca. O “novo” pode chegar de diversas maneiras e experiências. Não é necessário passar por um trauma para ter criticidade e mudar sua vida. O necessário é afastar o comodismo, conformismo e a espera de que a solução chegará pelo alto, pois dali só chegarão novos prismas para a construção da realidade mascarada.